O GLOBO – Dois sucos e conta com Marco Collovati

Médico italiano radicado no Rio fala da obsessão em eliminar doenças como a hanseníase e a malária

O trabalho do italiano Marco Collovati foi parar na primeira página do “New York Times” e em publicações como “La Stampa” e emissoras como Al-Jazeera. Nada mal para quem chegou ao Rio há 14 anos e, com pouco dinheiro, foi morar num conjugado na favela Pavão-Pavãozinho. Não falava português. “Meu professor foi o Faustão, já que via seu programa. E a música brasileira”, diz ele, de 44 anos, com uma filha de 3. Formado em cirurgia geral, havia conhecido em Florença um médico que fez residência com Ivo Pitanguy. Animou-se e veio disposto a trabalhar na enfermaria do cirurgião plástico na Santa Casa. Por um ano, operou como voluntário, das 7h às 22h. Mas era hora de ganhar dinheiro, o que conseguiu num consultório particular. Só que não estava satisfeito. Viu que queria mesmo ajudar as pessoas e abriu em 2010 em Vargem Pequena a empresa Orangelife, que cria testes simples e baratos para diagnosticar as doenças infecciosas e as negligenciadas, aquelas esquecidas por governos e laboratórios. Já há testes para toxoplasmose, malária, dengue, tuberculose, leishmaniose, HIV, sífilis, hepatite C, influenza A e B. O mais recente é um que detecta ataque cardíaco.

REVISTA O GLOBO: Por que você decidiu mudar de vida?

MARCO COLLOVATI: Ao me formar, na Itália, queria ser um médico rico e famoso. Não tinha nenhum lado humanitário. Até que, no Brasil, morando na favela, observei duas coisas opostas. Por um lado, a felicidade dos moradores, o prazer da vida simples. Por outro, o desespero e o abandono de que são vítimas. Mas, ao mesmo tempo, vi que há uma cooperação permanente entre eles. Fui me envolvendo também e percebendo que o dia em que ajudava alguém me sentia melhor. O melhor exemplo que posso dar à minha filha é: “Encontre o prazer em ajudar.”

Como são os testes que sua empresa desenvolve?

São testes rápidos, simples e práticos, semelhantes ao de gravidez da farmácia. Você pinga uma gota de sangue numa lâmina e, em cinco minutos, sai o resultado. E são baratos. Uma inovação que é para elite não serve, ela tem que funcionar para a base da pirâmide. A maioria dos testes não passa de R$ 5. Salvar uma criança custa tanto quanto um sorvete. Além disso, são fáceis de transportar e armazenar, e tão precisos quanto os de laboratório, sendo que você não necessita de energia elétrica. Pode estar na Amazônia, no deserto, na rua. E nem precisa de técnico especializado, basta um treinamento muito básico. Estão sendo usados na saúde pública e privada do Brasil, e em vários países. No interior, são a salvação, porque laboratórios pequenos e médios não têm volume de exame que justifique grandes equipamentos.

Foi difícil criar esses testes de diagnóstico?

Peguei algumas cabeças pensantes e falei que queria fazer os testes e um leitor digital, o smart reader, um aplicativo para celular que lê o resultado, tira uma foto, recolhe todas as informações e dispara o material para qualquer central de dados do mundo. “Impossível”, me disseram. Pois resolvemos investir e já estamos com cinco patentes, entre elas o smart reader.

Qual a doença que mais o incomoda?

A hanseníase (antes conhecida como lepra), porque é cercada de ignorância, estigma e preconceito. O Brasil lidera em casos em crianças e idosos e em danos físicos permanentes. O que mais me aborrece é quando dizem que é doença de pobre. O dinheiro não cria mais barreiras. As enfermidades se espalham. Veja as gripes aviárias, vindas da Ásia. Conheço madame que pegou tuberculose do motorista, que tossia no carro. Você pode obrigar a babá a ir de roupa branca ao Country Clube, mas ela vem da Baixada, pode ter hanseníase e estar contaminando seu filho.

O “New York Times” elogiou seu combate à doença.

Fui a Açailândia e Imperatriz (Maranhão), que têm alta incidência. Lá não há estrutura alguma e os testes que fabricamos, desenvolvidos junto com o instituto Idri de Seattle, são a única ferramenta. Me arrisco visitando todas as colônias do mundo, mas meu legado é eliminar a hanseníase e outras doenças negligenciadas. Sonho em fechar as portas da empresa em dez anos.

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